Conto: A Palavra

MDH 6

Um dia, um pescador, que veio estender sua rede na praia, encontrou um crânio seco na areia. Querendo brincar, dirigiu-se ao crânio e perguntou:

– Diga uma coisa, Crânio, quem trouxe você até aqui?

Qual não foi sua surpresa, quando ouviu o crânio responder: –

A palavra!

Imediatamente, o pescador correu até a aldeia, entrou na casa de seu rei e contou o acontecido.

– Um crânio que fala! – exclamou o rei. – Você tem certeza do que está me contando?

– Tanta certeza como a de estar diante do senhor e falar com o senhor!

– Cuidado, homem – disse-lhe o rei. – Se você me contou uma besteira, ai de sua cabeça!

E, em solene cortejo, ele foi até a praia para ver aquela maravilha. Quando chegaram diante do crânio, o homem repetiu com uma ponta de orgulho:

– Diga aí, Crânio, quem lhe trouxe até aqui?

Mas, desta vez, nada! Silêncio! O crânio não respondeu. Então o rei puxou a sua espada e decapitou o pescador na hora. Depois, voltou para a aldeia com seu cortejo.

Quando o rei foi embora, o crânio se voltou para a cabeça recém-decepada e perguntou:

– Agora, me diga quem lhe trouxe aqui para perto de mim?

– A palavra – respondeu a cabeça, desiludida.

Conto africano.

Discutindo: A satisfação de tagarelar leva, aqui, á decapitação. É claro que isso é um excesso. Entretanto, como em todos os contos, é preciso que ele transmita uma mensagem simbólica destinada a nos chamar a atenção sobre o perigo de falar sem pensar.

Beijos Beijos

 

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Conto: As bruxarias de um alforriado

MDH 6

Um cidadão alforriado tirava de seu pequeno pedaço de terra colheitas mais abundantes do que as de seus vizinhos. Eles, que possuíam terremos bem mais amplos, não conseguiam tirar nem a metade daquilo que o alforriado colhia e viviam atormentados pela inveja. Assim sendo, terminaram acusando o alforriado de fazer passes de mágica e atrair as colheitas para seu campo.

Então o alforriado foi intimado a comparecer perante a justiça de Roma. Temendo ser condenado, ele foi  ao fórum com sua junta de bois em perfeita forma, seus instrumentos agrícolas com as relhas do arado e todas as duas ferramentas de trabalho.

– Romanos – disse ele – , estes são os meus feitiços…pois não posso mostrar a vocês nem trazer até aqui meus cansaços, minhas noites não dormidas e meus suores.

Ele foi absolvido por unanimidade e pôde retomar seu trabalho, tranquilamente.

Plínio, o velho.

Discutindo: O trabalho dos homens e sua vontade são os maiores “passes de mágica”. Eles são capazes dos milagres mais espantosos! Vemos aqui que o trabalho é um valor supremo. Será que, em nossas sociedades ocidentais, ele conservou o mesmo valor? O sucesso está sempre ligado ao trabalho realizado? Se desvalorizamos a noção de trabalho, quais serão as suas consequências?

Beijos Beijos

Conto:: Diógenes e as lentilhas

MDH 6

O filósofo grego Diógenes, que, se diz, vivia em um tonel, é muito conhecido por seu amor absoluto pela liberdade e pela natureza. Um dia em que ele estava começando a fazer sua leve refeição de sopa de lentilhas, foi interpelado pelo filósofo Aristipo, que, por sua vez, levava uma vida dourada, pois fazia parte da corte do rei.

Com uma ponta de desprezo, Aristipo disparou:

– Sabe, se você aprendesse a se sujeitar ao rei, não seria constrangido a se contentar com restos, como esse vulgar prato de lentilhas!

Diógenes, fulminando-o com o olhar, replicou:

– Se você tivesse aprendido a se contentar com lentilhas, teria aprendido a não se sujeitar ao rei.

Conta-se também que o grande rei Alexandre, que admirava o desprendimento de Diógenes, foi visitá-lo um dia. Diógenes estava deitado ao Sol, seminu. Alexandre, o Grande, se aproximou e lhe declarou toda a sua admiração:

– Peça o que quiser e eu lhe darei!

Diógenes levantou a cabeça e respondeu simplesmente:

– Saia da frente do meu Sol!

Conta-se ainda que Diógenes tinha um escravo de nome Manes. Um dia, o escravo fugiu e Diógenes não teve a mínima preocupação de procurá-lo. Todos os seus amigos ficaram espantados:

– E daí? – disse-lhes Diógenes. – Manes pode viver sem Diógenes eu não poderia viver sem Manes? Meu escravo fugiu, Diógenes é que ficou livre!

Apólogo do filósofo grego Diógenes.

Discutindo: Diógenes nos ensina que a liberdade tem um preço. Para ser totalmente livre, não é necessário estar apegado a bens materiais, porque tudo o que possuímos, por sua vez, nos possui. Você acha que não ter nada,  não desejar nada é um exemplo a ser seguido, ou é apenas uma história destinada a nos ensinar os riscos que existem em querer possuir coisas demais? Que riscos seriam esses? Que coisa você está pronto a renunciar pela sua liberdade?

Beijos Beijos