Conto: As bruxarias de um alforriado

MDH 6

Um cidadão alforriado tirava de seu pequeno pedaço de terra colheitas mais abundantes do que as de seus vizinhos. Eles, que possuíam terremos bem mais amplos, não conseguiam tirar nem a metade daquilo que o alforriado colhia e viviam atormentados pela inveja. Assim sendo, terminaram acusando o alforriado de fazer passes de mágica e atrair as colheitas para seu campo.

Então o alforriado foi intimado a comparecer perante a justiça de Roma. Temendo ser condenado, ele foi  ao fórum com sua junta de bois em perfeita forma, seus instrumentos agrícolas com as relhas do arado e todas as duas ferramentas de trabalho.

– Romanos – disse ele – , estes são os meus feitiços…pois não posso mostrar a vocês nem trazer até aqui meus cansaços, minhas noites não dormidas e meus suores.

Ele foi absolvido por unanimidade e pôde retomar seu trabalho, tranquilamente.

Plínio, o velho.

Discutindo: O trabalho dos homens e sua vontade são os maiores “passes de mágica”. Eles são capazes dos milagres mais espantosos! Vemos aqui que o trabalho é um valor supremo. Será que, em nossas sociedades ocidentais, ele conservou o mesmo valor? O sucesso está sempre ligado ao trabalho realizado? Se desvalorizamos a noção de trabalho, quais serão as suas consequências?

Beijos Beijos

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Conto:: Diógenes e as lentilhas

MDH 6

O filósofo grego Diógenes, que, se diz, vivia em um tonel, é muito conhecido por seu amor absoluto pela liberdade e pela natureza. Um dia em que ele estava começando a fazer sua leve refeição de sopa de lentilhas, foi interpelado pelo filósofo Aristipo, que, por sua vez, levava uma vida dourada, pois fazia parte da corte do rei.

Com uma ponta de desprezo, Aristipo disparou:

– Sabe, se você aprendesse a se sujeitar ao rei, não seria constrangido a se contentar com restos, como esse vulgar prato de lentilhas!

Diógenes, fulminando-o com o olhar, replicou:

– Se você tivesse aprendido a se contentar com lentilhas, teria aprendido a não se sujeitar ao rei.

Conta-se também que o grande rei Alexandre, que admirava o desprendimento de Diógenes, foi visitá-lo um dia. Diógenes estava deitado ao Sol, seminu. Alexandre, o Grande, se aproximou e lhe declarou toda a sua admiração:

– Peça o que quiser e eu lhe darei!

Diógenes levantou a cabeça e respondeu simplesmente:

– Saia da frente do meu Sol!

Conta-se ainda que Diógenes tinha um escravo de nome Manes. Um dia, o escravo fugiu e Diógenes não teve a mínima preocupação de procurá-lo. Todos os seus amigos ficaram espantados:

– E daí? – disse-lhes Diógenes. – Manes pode viver sem Diógenes eu não poderia viver sem Manes? Meu escravo fugiu, Diógenes é que ficou livre!

Apólogo do filósofo grego Diógenes.

Discutindo: Diógenes nos ensina que a liberdade tem um preço. Para ser totalmente livre, não é necessário estar apegado a bens materiais, porque tudo o que possuímos, por sua vez, nos possui. Você acha que não ter nada,  não desejar nada é um exemplo a ser seguido, ou é apenas uma história destinada a nos ensinar os riscos que existem em querer possuir coisas demais? Que riscos seriam esses? Que coisa você está pronto a renunciar pela sua liberdade?

Beijos Beijos

Parábola:: Aquilo que não morre nunca

MDH 6

Um dia, uma jovem foi à presença de Buda, aos prantos. Seu filho tinha acabado de morrer e ela, que já tinha perdido o marido, estava sozinha no mundo. A jovem esperava que Buda fizesse um milagre, desejando intimamente que lhe devolvesse a criança. Buda sorriu-lhe com bondade e lhe disse:

– Vá até a cidade e me traga algumas sementes de mostarda de uma casa onde ninguém tenha morrido.

Ela foi. Contudo, em todos os lugares recebeu a mesma resposta:

– Poderíamos lhe tantas sementes de mostarda quanto você quisesse, mas sua condição é impossível de cumprir! Muitas pessoas já entregaram sua alma nesta casa!

Ela passou o dia inteiro teimando e bateu de porta em porta, esperando encontrar uma casa onde a morte jamais tivesse passado. Quando caiu a noite, a jovem desistiu e entendeu que a morte faz parte do ciclo da vida e que era inútil querer negar isso. Voltou ao encontro de Buda, que perguntou se ela trouxera as sementes de mostarda. A jovem ajoelhou-se diante dele, dizendo:

– Não vou mais lhe pedir que devolva meu filho, porque ele morreria de qualquer modo, um dia ou outro. Em compensação, ensine-me aquilo que não morre nunca.

Parábola budista.

Discutindo: Esta história pode parecer muito dura: Como é possível aceitar a morte de uma criança? No entanto, em algumas filosofias, a pessoa deve aceitar o sofrimento como uma etapa, como uma provação inevitável. Conforme outras filosofias, a dignidade, ao contrário, está na revolta contra aquilo que nos parece inadmissível: o sofrimento, a velhice, a morte de uma criança…O que você acha? Como você reage diante das grandes dificuldades da vida?

Beijos Beijos